
O advogado generalista de IA é quem hoje resolve boa parte do trabalho jurídico com ferramentas genéricas, como o próprio ChatGPT. A OpenAI acaba de mudar esse cenário: lançou o Astra for Law, uma ferramenta que desenvolveu especificamente para o setor jurídico.
A proposta combina o modelo GPT-6 Astra com recursos de pesquisa jurídica, instruções específicas e integração com sistemas já utilizados pelos escritórios.
A novidade levanta uma questão: se as inteligências artificiais estão cada vez mais especializadas, qual espaço sobra para as ferramentas generalistas no trabalho jurídico?
O que é o Astra for Law?
O Astra for Law não é apenas uma versão do ChatGPT com respostas mais voltadas ao Direito.
Segundo a OpenAI, a empresa desenvolveu a ferramenta para que escritórios e empresas de tecnologia jurídica possam criar produtos e fluxos de trabalho específicos para a atividade. Um dos principais diferenciais é o acesso a um índice próprio de pesquisa jurídica.
A OpenAI projetou essa base para reunir jurisprudência, legislação, regulamentos, regras judiciais e decisões administrativas dos Estados Unidos. Segundo a empresa, o índice já reúne mais de 230 milhões de URLs e recebe novas fontes todos os dias.
Outra característica é a integração com sistemas já usados pelos escritórios. A proposta é que a inteligência artificial deixe de ficar restrita a uma janela de conversa e passe a atuar em diferentes etapas do trabalho jurídico.
Por enquanto, porém, o acesso é limitado. A OpenAI está disponibilizando o Astra for Law inicialmente a escritórios selecionados nos Estados Unidos, por meio do programa Trusted Access, e prevê uma etapa posterior de acesso via API.
Ou seja, o advogado generalista de IA ainda não pode simplesmente abrir a ferramenta e começar a usá-la.
O que uma IA jurídica especializada faz de diferente?
A principal diferença está na especialização.
Uma IA generalista atende a diversas atividades. Um advogado pode, por exemplo, enviar uma petição e pedir que a ferramenta identifique problemas de clareza ou organize os argumentos. Também pode solicitar uma estrutura inicial para determinado documento ou transformar informações desorganizadas em uma lista de pontos relevantes.
Já uma IA jurídica especializada nasce pensada para as necessidades específicas desse trabalho.
Imagine, por exemplo, que um advogado precise pesquisar uma determinada questão jurídica:
- Em uma IA generalista, ele pode precisar fornecer contexto, indicar fontes e orientar a pesquisa.
- Em uma IA jurídica especializada, a pesquisa já está integrada a uma base própria de fontes jurídicas e aos sistemas do escritório.
Outro exemplo está na produção de documentos. Em vez de simplesmente pedir à IA que “faça uma petição”, o escritório pode usar uma ferramenta que segue seus próprios modelos, procedimentos e padrões internos.
É uma diferença importante: não se trata apenas de uma IA que conhece mais Direito, mas de uma tecnologia que se integra ao modo como o trabalho jurídico acontece.
Esse movimento pode levar a uma mudança no mercado. Em vez de uma única ferramenta para praticamente tudo, os profissionais podem passar a combinar diferentes soluções, conforme a atividade que realizam.
O advogado ainda precisa saber usar IA?
Sim. E essa é justamente uma das perguntas mais importantes para o advogado generalista de IA.
Uma IA pode localizar informações, sugerir argumentos e auxiliar na elaboração de documentos. Mas o advogado continua responsável por verificar se a informação está correta e se realmente se aplica ao caso concreto.
Independentemente de a ferramenta ser genérica ou especializada, as regras da OAB sobre uso de IA na advocacia continuam valendo. A Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB exige atenção redobrada às referências de jurisprudência e doutrina que a IA generativa apresenta, além de transparência com o cliente sobre o uso dessas ferramentas.
A própria OpenAI recomenda que o advogado revise as respostas e as fontes do Astra for Law antes de usá-las.
Quanto mais sofisticada fica a IA, mais importante se torna saber formular o problema jurídico e avaliar criticamente a resposta recebida. O diferencial do advogado não está apenas em saber escrever um bom prompt. Está em saber o que procurar, quais informações fornecer, quais fontes conferir e o que fazer com o resultado.
E o advogado brasileiro?
É aqui que a novidade exige cautela.
A OpenAI anunciou o Astra for Law inicialmente para escritórios selecionados nos Estados Unidos, e sua estrutura de pesquisa jurídica está voltada ao sistema jurídico americano.
A ferramenta trabalha com fontes como jurisprudência, legislação, regulamentos e regras judiciais dos Estados Unidos. Por isso, não é possível simplesmente transportar seus resultados para a realidade brasileira.
Uma pesquisa sobre determinado precedente americano, por exemplo, não substitui a análise da legislação e da jurisprudência brasileiras. Da mesma forma, uma ferramenta pensada para determinado sistema processual não serve como se as regras fossem iguais em outro país.
Ainda assim, o lançamento merece atenção do advogado generalista de IA. Isso porque mostra uma tendência que pode chegar ao mercado nacional: ferramentas de IA cada vez mais integradas a bases jurídicas, sistemas do escritório, documentos internos e fluxos de trabalho específicos.
Para quem já utiliza inteligência artificial na advocacia, vale acompanhar essa evolução.
O advogado generalista de IA está com os dias contados?
A chegada de ferramentas especializadas não significa que as IAs generalistas vão deixar de ser úteis. Elas continuam servindo para tarefas que não dependem de uma base jurídica específica, como revisão de textos, organização de informações, produção de conteúdo e atividades administrativas.
Já as soluções especializadas tendem a ganhar espaço nas tarefas que exigem pesquisa jurídica, acesso a fontes específicas e integração com os sistemas do escritório.
O mais provável, portanto, não é a substituição de uma ferramenta pela outra, e sim a convivência entre elas.
O Astra for Law ainda está em fase inicial e não é uma solução disponível para a advocacia brasileira. Mesmo assim, seu lançamento aponta para uma transformação importante: a inteligência artificial aplicada ao Direito tende a deixar de ser apenas uma ferramenta generalista de perguntas e respostas e passar a fazer parte da rotina dos escritórios.
Nesse cenário, o diferencial deixa de ser usar alguma IA e passa a ser saber qual ferramenta usar em cada etapa do trabalho, supervisionando criticamente o resultado de cada uma. Quem ignorar esse movimento corre o risco de perder competitividade, não para a IA, mas para colegas que souberem combinar essas ferramentas com critério.
O advogado generalista de IA, portanto, não parece estar com os dias contados. Mas pode estar surgindo uma nova etapa: a do advogado que sabe combinar ferramentas diferentes e incorporá-las de forma estratégica ao próprio trabalho.