O que é advogado multiportas e por que a própria OAB está falando disso?

O que é advogado multiportas e por que a própria OAB está falando disso?

advogado multiportas

Durante muito tempo, a formação jurídica associou combatividade a competência profissional. A figura do advogado multiportas propõe outra leitura. O processo judicial continua sendo uma ferramenta importante, mas não precisa ser a primeira resposta para todo conflito.

Os números acompanham essa mudança. Entre 2020 e 2023, o número de audiências de conciliação cresceu 137%, passando de 1,7 milhão para 4,1 milhões. Divulgado pela OAB na Cartilha da Advocacia Multiportas, o dado revela o espaço crescente dos métodos consensuais no sistema de Justiça.

Mas o que exatamente significa ser um advogado multiportas? Quais são as portas que esse profissional precisa conhecer? E por que a OAB decidiu criar uma comissão específica para tratar do tema?

O que é advocacia multiportas e o que define o advogado multiportas

A advocacia multiportas não significa abandonar o processo judicial. Na verdade, a proposta é ampliar o olhar do advogado para identificar, em cada caso, qual caminho é mais adequado às necessidades do cliente.

Trata-se de uma postura profissional ética e estratégica. Nessa perspectiva, o processo judicial é apenas uma das portas possíveis e nem sempre a mais eficaz para solucionar determinado conflito.

Assim, o Judiciário continua sendo uma via legítima de acesso à Justiça, mas passa a integrar um repertório mais amplo. Por isso, o advogado multiportas precisa conhecer as alternativas disponíveis para avaliar, junto ao cliente, qual delas faz sentido diante das circunstâncias.

Também é importante diferenciar justiça multiportas de advocacia multiportas. A primeira diz respeito ao próprio sistema de acesso à Justiça, composto por diferentes mecanismos de resposta aos problemas jurídicos. Já a segunda se refere ao papel desempenhado pelo advogado dentro desse sistema.

Em outras palavras, não se trata de um novo diploma ou profissão, mas de uma nova consciência sobre o exercício da advocacia.

Quais portas o advogado multiportas precisa conhecer

Ser advogado multiportas não exige atuar pessoalmente em todas as modalidades de solução de conflitos. O essencial é conhecer suas características e saber identificar quando cada uma pode ser considerada.

Entre as principais possibilidades, destacam-se:

  • Negociação: busca de uma solução construída diretamente pelas partes, com ou sem a participação de advogados.
  • Conciliação: método consensual em que um terceiro auxilia as partes na construção de um acordo, especialmente quando não há relação continuada entre elas.
  • Mediação: procedimento no qual um terceiro imparcial facilita o diálogo para que os próprios envolvidos construam uma solução.
  • Arbitragem: mecanismo privado em que um ou mais árbitros decidem a controvérsia, nos limites permitidos pela legislação.
  • Práticas colaborativas: modelo estruturado de negociação em que os envolvidos e seus advogados trabalham por uma solução consensual.
  • ODR (Online Dispute Resolution): uso de ferramentas e ambientes digitais para facilitar a negociação, a mediação ou a resolução de conflitos.

Esses são exemplos de métodos adequados de solução de conflitos que podem integrar o repertório do advogado. Naturalmente, a escolha depende das características de cada situação e do interesse dos envolvidos.

Portanto, a advocacia multiportas não está ligada a um único método. O ponto central é ampliar o repertório profissional para avaliar as alternativas disponíveis antes de definir a estratégia jurídica.

Por que a OAB passou a tratar da advocacia multiportas

O tema ganhou espaço institucional quando o Conselho Federal da OAB criou a Comissão da Advocacia Multiportas, na gestão 2025/2028. A iniciativa prevê atuação também nas seccionais e subseções. Como material de orientação, a entidade publicou ainda a Cartilha da Advocacia Multiportas.

A atuação dessas comissões se organiza em quatro eixos:

  • formação e capacitação profissional;
  • pesquisa e produção de conhecimento;
  • relacionamento institucional;
  • expansão estratégica da advocacia preventiva.

Essa estrutura revela uma mudança cultural. Por décadas, a advocacia foi associada principalmente ao processo e à defesa de interesses em um cenário adversarial. Agora, a perspectiva multiportas propõe que a judicialização seja uma possibilidade entre outras, e não uma consequência automática de todo problema jurídico.

Além disso, a mudança alcança a percepção sobre o valor do trabalho jurídico. O advogado pode ser contratado não apenas para reagir a um conflito instalado, mas também para identificar riscos, estruturar contratos, negociar e orientar decisões.

É nesse ponto que a advocacia preventiva ganha espaço. Com ela, o profissional passa a atuar antes do conflito, o que contribui para evitar que determinados problemas cheguem ao Judiciário.

Competências do advogado multiportas além da técnica jurídica

Conhecer diferentes métodos de solução de conflitos é apenas uma parte da proposta. O advogado multiportas também precisa desenvolver competências ligadas à comunicação e à condução do relacionamento com o cliente.

Entre as características esperadas estão estabilidade emocional, capacidade de sustentar limites, clareza e preservação da autonomia do cliente. Ou seja, o profissional deve ser estratégico, mas não manipulador. Cabe a ele apresentar riscos, cenários e consequências, sem tomar para si uma decisão que pertence ao cliente.

Nesse contexto, ganham relevância habilidades como:

  • escuta ativa, para compreender não apenas o problema jurídico, mas também o que o cliente efetivamente busca;
  • comunicação não violenta, especialmente em situações de conflito;
  • gestão de crises, para conduzir momentos de tensão sem transformar o problema em uma disputa ainda maior;
  • inteligência emocional, para reconhecer emoções sem deixar que elas determinem a estratégia jurídica.

Por fim, a inteligência artificial também integra essa transformação. Ferramentas de IA auxiliam em pesquisas, análise de informações e organização do trabalho. No entanto, não substituem a escuta nem o discernimento, justamente as competências que definem o advogado multiportas.

A tecnologia pode indicar caminhos jurídicos, mas cabe ao profissional compreender o contexto do cliente e conduzir a escolha da porta mais adequada.

Como aplicar a advocacia multiportas no início da carreira

No início da carreira, a advocacia multiportas pode parecer distante da rotina do escritório. Na prática, porém, ela começa em uma etapa simples. Antes de definir qual ação será proposta, cabe avaliar se o processo é de fato a melhor porta para aquele caso.

Na triagem, por exemplo, o advogado pode verificar se há espaço para negociação, conciliação ou mediação. Da mesma forma, pode analisar se uma atuação preventiva, contratual ou consultiva resolveria o problema antes que ele se transforme em litígio.

Um exemplo ajuda a visualizar essa lógica. Uma pequena empresa procura o escritório porque um cliente antigo deixou de pagar três parcelas de um contrato de fornecimento. O caminho mais imediato seria o ajuizamento de uma ação de cobrança.

Antes disso, porém, o advogado multiportas avalia o valor envolvido, o interesse em manter a relação comercial e a situação financeira do devedor.

Nesse cenário, uma notificação extrajudicial seguida de negociação pode viabilizar um acordo de parcelamento em menos tempo e com menor custo. Caso a negociação não avance, a via judicial continua disponível, agora com a tentativa de solução consensual documentada.

Isso não significa convencer o cliente a fazer um acordo. Significa apresentar alternativas, explicar riscos e permitir uma escolha consciente.

Para desenvolver esse repertório, o jovem advogado pode buscar capacitação em negociação e mediação, entre outros métodos adequados. Também vale acompanhar as atividades das comissões da OAB e participar de iniciativas voltadas à formação profissional.

Advocacia multiportas: uma nova postura, não uma nova profissão

A advocacia multiportas não propõe uma ruptura com a advocacia tradicional. Afinal, o processo judicial continua indispensável em inúmeras situações, e a atuação contenciosa segue necessária para proteger direitos.

O que muda é a forma de escolher o caminho: a partir das características do conflito, dos interesses do cliente e dos riscos envolvidos. Nesse sentido, o advogado multiportas representa uma continuidade coerente da própria finalidade da advocacia, que é buscar a Justiça com os instrumentos juridicamente disponíveis.

Para o jovem advogado, talvez essa seja a principal lição. Conhecer a lei continua indispensável, mas saber quando, como e por qual caminho utilizá-la também faz parte da atuação profissional.

Na rotina da advocacia, quantos casos chegam ao Judiciário sem que outra porta tenha sido considerada?

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